domingo, 22 de janeiro de 2023

Aonde fui parar?

 




"E entre meus remendos me faço inteira.
Bordei sorrisos onde doía, costurei as feridas abertas e, de retalho em retalho, fui tomando a forma que tenho.
Tudo foi importante. Tudo teve sua função. E hoje me visto de felicidade e gratidão."

Rachel Carvalho


Crescer como uma mãe e uma família como minha é descobrir, enxergar, abrir os olhos um belo dia e perceber que o que contaram sobre você e suas memórias da infância são mentiras e foram manipuladas. É saber que você teve que enfrentar tudo sozinha, desde quedas na infância como um machucado no joelho a um abuso sexual. É ter todas as fases da sua vida roubadas, distorcidas. Seu aniversário? Motivo para separação e todas as confusões e conflitos possíveis jogadas neste dia, e até hoje é um rio de lágrimas e dores esse data. Não há o que comemorar...Suas vitórias? Incomodam, você não pode ter sucesso, você não pode ser nada além do que querem pra você...

É crescer tendo que ser perfeita, ter uma letra bonita, obrigada a escrever em caderno de caligrafia, obrigada a tirar 10 em uma prova na primeira série e se você não tirar, a professora é manipulada pra você refazer a prova. Porque você não ligou bem os pontinhos, porque você fez do seu jeito e seu jeito não é permitido.

E ganhar uma bicicleta de adulto quando você tem sete anos, é sofrer um abuso e não poder contar aos quatro anos pra sua mãe e avó, porque nessa idade você já internalizou que não iriam te ouvir ou te acolher. 

É crescer engolindo todas as mágoas, dores, sufocando tudo, da cada mínima necessidade desde a mais básica a questões emocionais profunda você saber que tem que enfrentar tudo sozinha ou escutar é "só uma fase vai passar", "você está inventando coisas", "você é muito emocional", "sonhadora", "não é centrada", sim não sou, porque o centro são todos eles...

Tudo que eu acreditei sobre mim e arrogante cheguei a me achar melhor que as outras pessoas, foi distorcido e era mentira. Sim, eu vivo uma crise existencial, mas esse é de verdade, por isso não vou me jogar de nenhuma ponte, essa informação me chega porque estou preparada e minha vida está mundando.

Nasci menina, medium, sensível, usei a arte e as vidas passadas para lidar com um ambiente familiar tóxico que sempre jogou a culpa em mim, desacreditou meus ataques espirituais e o quanto toda a dor que me causaram era ampliada pelo meu lado sensitivo. Sim, uma tortura que por 31 anos neguei, achando que o problema foi sempre a minha personalidade, a raiva que expressava quando já não aguentava mais por tanta negligência e abusos emocionais, por nunca poder falar o que sentia porque minha mãe sempre vítima, me anulava nas minhas reais necessidades, e em troca me dava coisas materiais, as quais sempre me fizeram sentir um vazio enorme.

Hoje descobri que meu cansaço não é espiritual, é anemia autoimune e vampirismo emocional da minha mãe e pai que no momento mais lindo e divino da minha vida, meu parto, continuaram a fazer o mesmo de sempre, empatia zero e me trouxeram mais conflitos. Sim, nós filhas de pessoas assim, fazemos isso, eu tentei evitar que nos encontrassemos nesse momento, mas não pude, eu estava no hospital e precisei deles. Nós repetimos esse padrão doentio, como uma síndrome de Estocolmo, porque assim fomos criadas, acostumadas a sermos inválidadas, e nossas necessidades negligenciadas para dar espaço para eles, no meu caso pai e mãe, narcisistas. E isso já havia me acontecia aos 8 anos, onde fiquei doente no hospital e eles não forem me acompanhar. Cada um tinha outro compromisso importante. Não sou vítima, por mais que acreditei nisso, como diz uma mulher "nós seres de luz somos feridos", sim somos feridos porque podemos nos curar...

Mas para isso temos que acolher nossa dor, nossas sombras, ferimos também, magoamos, também, repetimos esse padrão com outras pessoas, mas não temos esse transtorno, porque decimos nos erguer, e falo isso para outras mulheres que passaram por isso e agradeço pelas que se afastaram da sua família e vivem uma vida saudável, obrigada pelos seus relatos, pela sua coragem em escolher a própria vida. Hoje minha mãe faz aniversário, e decidi me afastar dela já vai completar dois meses. Me peguei querendo contatá-la, afinal foi o dia que nasceu. Mas lembrei que qualquer contato pode ser como uma bomba relógio e um recomeço de uma série de abusos. Porque lembre-se ela não tem empatia, nada muda e todas as datas comemorativas foram uma tortura, uma confusão, intrigas, tristeza...sinto muito mas vou fazer algo que já deveria ter feito a muito tempo e te decepcionar. Sei que vou me tornar uma vilã, e que você vai falar mal de mim para todos. Mas não importa, mesmo assim te amo. E escolho te amar, tendo uma vida saudável. Eu sigo em frente, e você segue com as tuas lições.

Por mim, que nunca me escolhi, que nunca cuidei de mim, que fui um lata de lixo de todas as neuroses da família, amigos e outras pessoas. Eu me salvo, eu me MATERNO, eu sou mãe da minha filha, eu sou a melhor pessoa para mim mesma e penso por mim mesma. FELIZ NOVA VIDA, cada nascimento de minha ancestrais é o meu mesmo. Bem-vinda a mim mesma. Me amo e amo todas vocês mulheres, sobreviventes, fortes, frágeis, cansadas com suas doenças autoimunes, no pior momento sempre tivermos nós mesmas, que nosso amor nos cure e que se expanda a outras pessoas. Te amo. 




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