sexta-feira, 28 de março de 2025

Pedras

 


Há um bom tempo atrás eu voltei para o mar sabendo que ia fazer uma grande jornada dentro de mim e do meu passado, minha infância. As águas me deram uma filha e segui nesta jornada pra dentro de mim, as águas já estavam me afogando e aqui eu me encontro entre as pedras. Deixamos o mar e fomos para o meio das pedras, montanhas, ruídos, trânsito....para mais uma jornada e dessa vez um pouco mais pra fora de mim. Não consigo me conectar com as plantas, com a terra e há sempre muitas pedras. Que mensagem querem me enviar? Venho com um desejo de construir, de fazer as coisas um pouco mais concretas, apesar disso ser uma grande ilusão. Neste ponto da minha vida tudo se desfaz, é dolorido, mas é preciso. Eu busquei transformar e tudo se desintegra. Eu vou soltando pouco a pouco com a ajuda das águas dos rios e muitas pedras. Que sempre estiveram aqui, estão sempre aqui, tudo passa, mas elas seguem firme com as mensagens de tempos tão antigos ou nem tanto. Mais ilusões minhas. Mas há travessias para se fazer, todas dentro de mim em companhia de tantas pedras. Que mensagem eu poderei deixar?

quinta-feira, 13 de março de 2025

As sombras

 


Eu já fiz muitos caminhos que deram no mesmo lugar. Para fugir da dor, da escuridão, do abismo que eu mesma me meti de alguma forma. O que outro faz em nós diz respeito ao que fazemos com isso. No fundo só existe você responsável pela sua salvação. Nenhum ser da Terra ou fora dela. Por mais que possamos nos inspirar em salvadores. Não há ninguém além de nós mesmos. Sempre volto pro mesmo lugar, aquele grito abafado, o esquecimento para poder sobreviver. As sombras que me mantém presa a essa escuridão que luto para não ver. Ali quieta, até que um dia queima na alma. Estou cada dia ficando mais velha, já perdi muitas ilusões desde muito pequena. E vivo uma luta diária para existir para além de toda dor que carrego. Como a vida apesar de tudo isso seguiu através de mim. Toda a violência, rejeição, abusos e abandono que vivi. Toda morte diária através de meu corpo pequeno de criança, o que suportei, amorteci...cheguei até aqui. Este aqui é aceitar as sombras. Elas vão sempre existir por mais que tenha tentado e falhado de toda a forma a me afastar dela. Mas ela deita comigo e quando tento relaxar me ataca pelo meu útero e meu mais íntimo ser. Será que preciso ter medo dela? Nesta insistência de purificar o que nunca foi puro. O que nunca foi bom. O que nunca chegou a ser. Mas continuo aqui lutando pela minha liberdade interior, para além das limitações que me foram impostas tão cedo e sofridas neste corpo de mulher. Será que existe uma existência feminina para além da dor? 

 Hoje eu pertenço a este lugar onde estou, esta fronteira que muito lutei para criar. Eu escolhi este lugar e me sinto bem nele. Nele eu sou...