Ninguém escuta uma mulher. Nem as mulheres. Porque se uma mulher escuta uma mulher vai lembrar da sua própria dor. Melhor negar. Neste labirinto nunca chegamos a lugar nenhum. Este mundo não foi feito para as mulheres e ainda assim o sustentamos. Quantas fantasias vamos acreditar para poder sobreviver? Não temos verdadeira voz, nossos cansaços e sobrecargas são usados como argumentos contra nós. Temos que sempre servir de alguma maneira, não podemos ser. Cada dia sinto que a mulher morre, porque também a humanidade já não é e nem será a mesma. E mesmo mudando essa humanidade a mulher vai seguir totalmente dissociada e com a memória apagada de sua própria história. Sem Deus, sem memória, apenas dívidida e sendo usada e distraida pelo sistema patriarcal. Não sei quantas máscaras mais tenho que usar já estou cansada de todas. Uma profunda revolta me abate e eu digo não! E não me importa, a raiva tomou conta, uma raiva para além da dor, da tristeza, da impotencia que sinto diante de tudo que nunca pude mudar e nunca poderei. Porque a verdade é que nunca podemos fazer nada. E por esses tempos tudo se está acabando e talvez só teste minha alma reivindicando eu mesma. Um grito de basta!! Não dou Eva, não sirvo a nenhum Deus, cansada de estar me sentindo culpada por algo que não fiz, pelo amor que gostaria de receber e não tive. Pela minha fragilidade, pela minha raiva, pelos meus pedaços. Quero ser inteira e não tantas interrompidas e inacabadas. Ninguém me esperava quando vir para este mundo, quero ultrapassar meu frio destino. Minha insignificância, minha solidão. Só tenho eu mesma e basta. Só quero sair deste lugar sem ninguém, sem amor, sem conexão, sem empatia e sem alma. Ultrapassar está necessidade humana de mãe. Já perdi a oportunidade há muito tempo. Hoje sou mãe. Sou a única mãe que conheço. E o único amor que me foi permitido, por minha filha. A força desta filha. Ninguém escuta a mulher. E eu não estou procurando mais, eu só estou saindo de cada lugar vazio em que coloquei uma âncora à espera de nada.
