sábado, 27 de julho de 2024

Ninguém escuta

 



Ninguém escuta uma mulher. Nem as mulheres. Porque se uma mulher escuta uma mulher vai lembrar da sua própria dor. Melhor negar. Neste labirinto nunca chegamos a lugar nenhum. Este mundo não foi feito para as mulheres e ainda assim o sustentamos. Quantas fantasias vamos acreditar para poder sobreviver? Não temos verdadeira voz, nossos cansaços e sobrecargas são usados como argumentos contra nós. Temos que sempre servir de alguma maneira, não podemos ser. Cada dia sinto que a mulher morre, porque também a humanidade já não é e nem será a mesma. E mesmo mudando essa humanidade a mulher vai seguir totalmente dissociada e com a memória apagada de sua própria história. Sem Deus, sem memória, apenas dívidida e sendo usada e distraida pelo sistema patriarcal. Não sei quantas máscaras mais tenho que usar já estou cansada de todas. Uma profunda revolta me abate e eu digo não! E não me importa, a raiva tomou conta, uma raiva para além da dor, da tristeza, da impotencia que sinto diante de tudo que nunca pude mudar e nunca poderei. Porque a verdade é que nunca podemos fazer nada. E por esses tempos tudo se está acabando e talvez só teste minha alma reivindicando eu mesma. Um grito de basta!! Não dou Eva, não sirvo a nenhum Deus, cansada de estar me sentindo culpada por algo que não fiz, pelo amor que gostaria de receber e não tive. Pela minha fragilidade, pela minha raiva, pelos meus pedaços. Quero ser inteira e não tantas interrompidas e inacabadas. Ninguém me esperava quando vir para este mundo, quero ultrapassar meu frio destino. Minha insignificância, minha solidão. Só tenho eu mesma e basta. Só quero sair deste lugar sem ninguém, sem amor, sem conexão, sem empatia e sem alma. Ultrapassar está necessidade humana de mãe. Já perdi a oportunidade há muito tempo. Hoje sou mãe. Sou a única mãe que conheço. E o único amor que me foi permitido, por minha filha. A força desta filha. Ninguém escuta a mulher. E eu não estou procurando mais, eu só estou saindo de cada lugar vazio em que coloquei uma âncora à espera de nada.

 Hoje eu pertenço a este lugar onde estou, esta fronteira que muito lutei para criar. Eu escolhi este lugar e me sinto bem nele. Nele eu sou...