quarta-feira, 18 de junho de 2025

Me protejo de todo o mal



Ainda tenho medo
Mas entrego
Olho a escuridão dentro de mim mesma
A que vejo no outro
Eu escolhi a luz, eu escolhi construir
Em um mundo em que a guerra e a espada ainda imperam
Nasci mulher e das profundezas do feminino que habita em mim
Eu me entrego
Eu deixo que o mal me atravesse
Pois a luta contra tudo o que me maltratou só aumentou a conexão com o que eu quero me distanciar
Há batalhas que não se podem vencer
Há pessoas que nunca poderão ser boas
Não há controle nenhum
Só sobre mim mesma
Sou livre
Me entrego ao meu caminho
Morro hoje para dar luz ao que sou amanhã 
Eu sou livre mesmo que me prendam
Pois meu espírito não pertence a esse mundo
De todo o mal eu apenas fluo como um rio
Que chegará ao um grande mar
Eu chego lá 
Estou a caminho minha grande mãe 
É aos teus mistérios que me entrego
Ao feminino que me faz atravessar toda a dor
Pra dar luz a mim mesma
Não me prendo, apenas navego com as águas de mim mesma

segunda-feira, 16 de junho de 2025

 Eu deixo minha infância aqui para viver outra infância dentro de mim. As dores, o desamparo, as humilhações e os abusos, o triste caminhar de uma menina perdida e solitária, que hoje é uma mulher que pode se defender e não necessita agradar ninguém para sobreviver. Muitos abismos atravessei, muitas vezes completamente congelada, dissociada para seguir em frente. Mas a verdade que nunca tive ninguém, sempre fui órfã mesmo vivendo com pai e mãe. Mas isso não importa agora, pois não sou frágil, não sou mais criança. Esses últimos 30 dias na presença de muitas crianças trabalhando em uma creche pude crescer desde dentro. Eu apenas uma mulher tentando consertar meu passado de dor, de não poder confiar em ninguém, ganhei forças através dos olhares das crianças que só buscam segurança, apoio, carinho eamor. Sei que pude acolher muitas, validar suas dores, torná-las visíveis. Assim fiz por mim mesma. Acho que no fundo é o que se pode fazer, apesar de ver o quão as crianças são apenas um peso para os pais, professoras totalmente insensíveis e a sociedade doente que estamos vivendo. Não há muito mais o que fazer, tudo está cada vez pior no mundo e sempre começa pela infância. Mal nascem já são tiradas das mães e estas mesmas não tem condições psicológicas para criá-las dentro do seu egoísmo e colocam os filhos 11 horas em uma creche. Como é o caso de um menino que claramente as poucas horas que passa com os pais não é o suficiente, vive doente e deprimido, e não chegou nem ainda aos três anos. Um dia deitou a cabeça no meu ombro e comecei a chorar a sentir a tristeza desta criança. Que tipo de futuro se espera desta geração? Cheia de estímulos, brinquedos, pessoas estranhas cuidando delas o dia inteiro e sem amor, com os pais estressados e ocupados? Atravessei esses trinta dias com muita dor, sinusite, febre, raiva e toda a impotência que senti na minha infância para me conectar com este pequeno clã de crianças que seguiam brincando, lutando e criando a sua maneira de viver no mundo, mesmo sem os pais para guiá-los e amá-los. Eles são um incômodo, eles não foram desejados, e todos os complexos que cada familia traz. Ninguém mais pode criar uma criança, é muito caro ficar em casa e acompanhar o desenvolvimento...sim as mães solo, as família pobres, etc. Não estou ignorando, sei que cada um faz o que bem pode. Mas as crianças que convivo os pais tem dinheiro e muitas mães ficam em casa.  A infância está desamparada assim como eu sempre me senti. Mas me tornei a mulher que sou, eu vejo o outro porque nunca fui vista. E aprendi com estes pequenos o que nunca tive: amor. É nossa condição básica e as crianças estão sozinhas quando mais precisam de orientação e bons exemplos. Hoje estou livre para ser a criança feliz que não fui. Dentro de mim. A mulher que sou me protege e coloca seus limites. Eu sou que sempre precisei. 

 Hoje eu pertenço a este lugar onde estou, esta fronteira que muito lutei para criar. Eu escolhi este lugar e me sinto bem nele. Nele eu sou...