Ali estava eu a me emocionar com meus próprios movimentos dançando em um vídeo. E pensando que mistério, que mistério sou para mim mesma. A dança parecia uma luta, uma angústia, uma busca por libertação, e eu perguntava: é algo dessa vida ou da outra? Porque tanto fogo, tanta força no movimento, tanta energía? Eu passava algo da alma, e pela primeira vez toquei meu próprio coração comigo mesma. Pois já não sei quem sou, estou trocando de pele, mas a essência está alí, naqueles movimentos livres, nos loucos giros, nos braços cansados de não alcançar. Me acostumei a sapatos menores que meus pés, a falar mais baixo, aos "não sonhe tanto", "fique na superfície", "não fale tudo isso"...e agora sigo buscando ir além das minhas limitações, das vezes que permiti ser anulada ou silenciada, ou deixei de fazer algo porque não iriam compreender a mensagem do que estava passando. Eu que ao olhar para este vídeo com outras mulheres dançando em outras partes do mundo juntas, senti que pela primeira vez eu fazia parte, do meu jeito intenso, contraditório, mas senti essa harmonia que emana de mim e que emanava delas. Eu era somente mais uma parte, enfim, eu faço parte do meu jeito singular. Quem sabe o patinho feio não precisa bater de porta em porta exaustivamente, talvez ele apenas tenha que aceitar que como ele é, poder ser o que falta nos outros e vice versa, e isso não quer dizer que ele vai ser aceito, não nesse nível que vivemos, mas ele já é simplesmente uma parte muito importante, que precisa ser lembrada, como uma doce revolta.

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