Tami Lynn Kent
Wild Femenine
Esta noite senti no meu útero um frio, um vazio, como se ele me traduzisse um abandono que sinto em forma de cólica. É um sentimento antigo, de menina. Coloquei minha mão sobre o ventre para passar calor, carinho, aconchego, fui me sentindo melhor. Agradeci, pedi desculpas pelas muitas vezes que não escutei sua voz. Hoje peço para ouvi-lo, escolho escutar a partir do meu centro de poder, o útero que carregou e cuidou da minha filha por 9 meses. Sei que ainda está cicatrizando, sei que guarda memórias não só minhas. A cada dia é um desafio equilibrar o mundo lá fora com aqui dentro. Nunca fui mulher lá fora, e sim usei minha armadura para poder sobreviver, sobrando pouco tempo para o quão vulnerável é sentir com o corpo, com a alma, como esta linguagem é silenciada, ignorada no meio de tanto barulho, distração. Penso no útero da minha menina, como ela já sente, como posso ajudá-la a ser mais saudável no seu feminino. Olho agora pra ela crescendo no meio das minhas questões, do meu cansaço, da minha necessidade de controle quando a vida me mostra o contrário. Já não tenho mais ao que me apegar, ou me esconder. Não tenho mais profissão pra continuar ignorando meus traumas e frustrações. Todo dia é uma alegria estar na companhia dela ao mesmo tempo que tenho que lidar com minhas emoções, meus pensamentos negativos, minhas dores, minha solidão. Mas no meio da noite, no silêncio, meu útero está ali, batendo como um coração, pedindo para que descanse, que pare de fazer coisas, procurar incansavelmente cómo seguir em frente, que pare de pensar que não sou boa o suficiente, que eu só preciso ser, estar, como uma felina, observando, presente, com prazer, com amor, sem necessidade de dar minha opinião ou posição, sem necessidade de existir como sempre existi, de remar contra a maré, não preciso mais fugir ou encontrar um lugar onde me sinta bem, ele não existe, tenho que estar segura no meio da insegurança, como um tronco de uma árvore no meio da tempestade, e ter a paciência da natureza, com seus ciclos, suas secas, suas chuvas, sua vida que renasce. Preciso parar de ser só fogo e água, ou um vendaval de ideias, sem terra, sem chão, sem raízes. Tenho que estar aqui, encarar o que não me agrada, sentir a amargura, a dor nos ossos, esperar a chuva passar, para que esteja pronta para dançar, renovada, integrando o mundo de fora e o mundo de dentro, a luz e as sombras, sem me apegar a nenhum dos dois lados, apenas sentir com meu útero, meu contrato com a terra, ser uma filha da terra.

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