Na busca da minha própria identidade como mulher, percebi que quando se cresce com muitos conflitos com a sua mãe (sua primeira referência), essa é a origem dos sentimentos de inadequação e de que tudo sai "errado". Uma raiva tão grande surge daquela que nunca te amou e nem irá te amar e de todo o tempo em que em vão você passou de menina a mulher sem ser reconhecida. Você não chega a ser mulher, porque não houve "mulher" enquanto você crescia. Não há lugar para ser você, muito menos seu eu mulher. É uma angústia e inconstancia tremenda. Me sinto inacabada, inútil, e todo o começo é um eterno começo. Como fazer castelinhos de areia, não dura. Só com areia não se constrói nada que perdure, que proteja, que abrigue de verdade. É a dualidade, eu sigo, me fortaleço no "essa sou eu" e depois me rejeito. Que coisa mais dura para uma criança ser rejeitada, invalidada, invisibilizada. Talvez eu tenha crescido rápido demais e pude chegar até aqui, com possibilidades de mudar completamente minha história e aceitar as dores profundas. Talvez lá no fundo eu queira seguir quebrada e não mude, só sofra, como ficar com a única coisa que conheci. Triste demais, vou passar pela dor, vou arrancar minhas antigas penas e bicos. Vou fazer uma mulher de barro e deixar o mar levar a mulher de areia. Minha mãe é areia e eu sou barro. No fundo temos a mesma matéria prima, mas não somos as mesmas.
Luz de luna

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