A ferida materna é profunda. A dor se instala no teu corpo e se espalha por toda a vida. Mas nossas mães antes da maternidade, foram mulheres, meninas, bebês...e em algum momento algo fez com que aquela menina se tornasse uma mulher dissociada e infantil. Ela pode se portar muito bem perante a sociedade, no trabalho, usando boas roupas, se fazendo de coitadinha, de vítima, enquanto lá no fundo do seu ser só existe o vazio, o frio, a falta de amor. É tanta falta de amor que nem o amor da sua filha é o suficiente. A ferida se instala no DNA, no útero, na alma e você cresce com ela, uma menina abandonada, rejeitada, que nunca entende porque nada é o suficiente para fazer aquela mulher, sua mãe feliz. E não, não é culpa sua. Porém você cresce com a culpa, você cresce achando que você é o que deu errado, que sua existência é um incomodo. E você não aprende nada para a vida, só dores, cansaço e tem que enfrentar tudo sozinha. Você acha que nunca vai se tornar mulher e que sua vida vai ser pra sempre quebrada. É muito duro sofrer esse abuso íntimo, que é a incapacidade de sua mãe te amar, que também não é culpa dela, mas isso não diminui a raiva e a tormenta que existe dentro de você, por essa relação tão doentia. E novamente com aquela dor, incômodo, tendo minha menina para amar, eu estou lá lutando para me acolher e ser mãe consciente. Eu contei para ela o que estava sentindo e pouco a pouco fui retomando meu contato com ela, pois a relação difícil com a mãe te afasta da sua filha e esse não é o caminho que escolhi. Estou afastada da "família", que já em constelações e trabalhos de cura nunca mostraram nenhum interesse na minha existência, sou invisível nesse sistema. Porém o que afeta mais é a relação com a mãe e pai, e nessa bagunça toda, os dois deixaram danos profundos. Estou sozinha, dói, é muito desafiante se reconstruir, sou mãe, não penso só por mim, sou exemplo. Exemplo de uma mulher com muitos traumas e abusos psicológicos, que se isolou nos últimos anos para sobreviver, que se sente invisível para poder parar de sofrer ataques familiares. Eu fui descartada com o nascimento da minha filha pelos meus pais, porém não permito que a usem para preeencher o vazio das suas vidas. O subconsciente se afoga, eu não quero voltar para o padrão antigo e estou no escuro procurando um novo. E à noite vem as dores, começa no útero, um peso nos ombros, a garganta dói (nunca me escutaram, não adianta falar), o pescoço dói, as articulações. Eu se pudesse mudava de corpo, esse está altamente travado. Não sou mais criança e não posso mais seguir guiada por ela, mas mesmo distante do mal que passei, escuto as vozes, as frases...trauma é coisa séria. E não tem receita, tem que mergulhar na escuridão. Eu estou fragmentada, não me sinto inteira, e não quero permitir que me tirem mais nada, eu já fui bebê, criança, e naquela época não podia sair correndo. Agora essa vida é minha e não estes seres escuros de outras dimensões vão se aproveitar da minha dor. Sou muito mais do que vivi e essas dores da alma, sou muito mais do que querem de uma mulher ou mãe. E posso amar e ser amada apesar de tudo, mas isso não existe se esperamos do outro. O outro nunca nos dará o que somos.

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