sábado, 28 de janeiro de 2023

Salvar a si mesma


 Hoje terminei o livro da escritora portuguesa Rosa Leonor Pedro, Lilith, a mulher primordial. Coloquei ele sobre meu peito tão magoado, a agradeci por Lilith, pela Rosa, pela minha vida. Já chorei por tantas partes renegadas em mim, por ainda não conseguir ser eu mesma, por não ter tido um mãe que acolhia, protegía, amava, dava colo. Por ser uma  mulher quebrada que aprendeu a duras penas e fantasias a sobreviver sem amor, sem lugar. É o começo da minha jornada até mim. Até agora o que fui foi para ser amada, eu não morri por dentro por insistir que devia haver algo a mais, mas caminhei como a medicina do coyote, de trapalhada em trapalhada, colocando fogo no próprio rabo e culpando as circunstâncias. A responsabilidade é minha, só minha, tenho que admitir que neguei muito que vivi em uma família disfuncial, que a culpa era minha, pela minha sensibilidade, pelo meu olhar para o mundo, para onde não havia status e glamour, ou sucesso. Até hoje não acredito no meu sucesso, fui tão ridícularizada pelos meus e pelas pessoas que atraí, que já acreditei que não posso ir enfrente com o que eu gosto de fazer. E pois bem acho que não sei do que gosto de fazer porque usei as religiões, terapias, dança, vidas passadas para sobreviver. Cresci onde não se podia sonhar nem amar. Onde mulher que faz sexo e gosta, é puta. E jamais, nenhuma mulher pode ser mulher, cresci com o ódio da minha avó pelas mulheres, inclusive fazendo sua própria filha de bode expiatório e sua neta invisível. Eu fui catando o que podia, desde confetes no chão, porque não compravam para mim no carnaval desde fazer amizades com mulheres mais velhas para cuidarem de mim, ou ter um pouco de acolhimento. Sim, desde cedo quando percebi que não tinha mãe (que só agora assumo isso), eu aprendi a me virar sozinha e ajudar aos outros para ser amada. Eu não sei ser ajudada, faço de tudo para não depender. E agora como mãe, renunciei o mundo lá fora, para estar com minha menina. Mas dependendo financeiramente, e isso me mata. Não sei viver assim, parece que estou presa de novo com a família que acreditei que era boa pra mim, mas só me anulou e invalidou. Eu tentei salvar todos, mas quem precisa de salvação sou eu. Somente eu posso salvar a mim mesma. Mas eu tenho dependência emocional, eu preciso de pessoas, não sei ser só e não poder ajudar. Foi assim que sobrevivi. Com meus cafés e docinhos para amortecer a carência. Com meus estudos, meus livros...

E agora? Que estou somente eu e minha menina? Nosso amor, meus medos, meu perfeccionismo, minhas falhas. Eu não sou perfeita, mas não consigo ir enfrente sem as condições adequadas, por isso até agora não me realizei em carreira. Carreira é algo muito frio, e eu só recebi frieza. Então misturo minha necessidade de amor e conexão, e saio dos empregos, encerro meus projetos porque necessito de aprovação...tudo dá sempre errado, ou eu mesma busco que dê errado...eu procuro conflito, cresci com conflitos, mentiras, manipulação, maldade...eu lutei muito contra isso, em vez de descansar no amor, tenho problemas para descansar profundamente, sempre vivi situações estressantes.

Eu salvei a mim mesma, eu tenho que reconhecer e admitir. Eu bati em muitas portas, pessoas, lugares, conhecimentos, o que fosse para entender o que me passava. Já tive vários cortes de cabelo e cores, roupas para procurar minha identidade e sempre acabava me sentindo inadequada. Alguém me abandonava ou me rejeitava. Minhas amizades sempre indisponíveis para mim. Foi o que vivi, é só o que sabia encontrar. Hoje me sinto culpada de ter tentando através da minha filha nos primeiros meses que eu fosse amada através dela, por uma família que não dá a mínima pra mim. Eu sobrevivi a uma família inteira sem nenhuma empatia. Eu sinto a dor do outro, mas eu esqueci de mim, eu sabia que não podia existir e por isso me tornei essa angústia toda. Eu existo!!!! Eu tenho necessidades, eu posso ser inteira. Lilith me arrastou para mim mesma. Minha busca me fez encontrar a Rosa e seus escritos. Lilith me acompanhou no meu parto, pois eu ingênua acreditei que minha filha podia também curar minha família doente e hoje sei que só eu mesma posso me curar. Porque nós mulheres temos tanta dificuldade de deixar o que nos faz mal? Lilith me morda, me arranca a pele...porque eu tenho medo de um futuro de amor para mim? Sem conflitos? Porque vivo buscando pessoas que não me dão a mínima? Porque ainda aceito abusos? O que me falta Lilith. Eu tô meio morta ainda, minha outra parte está viva por minha filha, essa menina poderosa me resgatou. Ela merece ser só menina, criança, amada, acolhida!!! Ter o espaço livre para ser inteira e ter sei poder admirado. Até disso eu estava com medo, como fizeram comigo!! Eu e minha filha temos e podemos juntas ser poderosas, poder do útero, da alma, de pensar por si mesma. Me abençoe Lilith!

Há muito pela frente, há muito amor pela frente, eu estou lutando a cada 5 min pela minha liberdade. Que eu aceite o meu papel de transformar minha história, fazendo um novo caminho, que eu não tenha medo do fogo.



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