Esperanza me transformou em o que eu sou, resgatou minha alma e me tirou a ilusão que vivia agarrada sobre o que acreditava de mim. Se hoje não me reconheço é porque o que fui já estava com prazo de validade vencido. Nós temos medos do que somos, da nossa imperfeição, da tamanho da nossa fragilidade. Mas o amor chegou, chegou até a mim através da minha menina. A carreguei por nove meses, me atravessou o corpo, me fez em mil pedaços por onde é possível passar a luz. A mulher em mim se reergueu e encerrou um ciclo de abusos que se mantinha por gerações de mulheres. Minhas fronteiras estão cada vez mais estabelecidas, não necessito mais de força e cansaço para mantê-las, só tomo meu território, meu corpo, minha maternidade, meus pensamentos. Penso por mim mesma, amo da minha maneira, o que aparento ser é tão fugaz, tão pequeno que não alcança minhas profundezas. Minhas feridas seguem aqui, mas não dou tanta atenção para elas. A duras penas venho aprendendo a conviver com minhas dores e minhas sombras. Já não busco verdades, já não busco a mim mesma ou o outro. Apenas fico com o que é meu, e vou aprendendo como um caracol com asas a dar voz aos meus dons. Ser mulher, em essência, me amando para além da culpa de não ter sido amada, desejada. Minha alma se encontra com ela mesma. Conheço a solidão desde que decidí vir para este mundo, não há nada a temer. Recolho meus atiradores, meu escudo é ser eu mesma, cada dia. Mãe, mulher, espírito livre, caminhando por esta Terra.
Luz de luna, Bruna

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