"Eu amo-te, e por vezes sinto falta de mim própria.
Tenho saudades de pensamentos que não estejam fragmentados. De conversas que não sejam sempre interrompidas. Sinto falta de poder terminar uma frase sem parar a meio do caminho para procurar uma palavra que uso todos os dias.
Amo-te, e sinto falta da espontaneidade, da forma como costumava sonhar coisas ridículas com a noção de que elas poderiam realmente acontecer no dia seguinte. Sinto falta de mandar a cautela ao vento e de não ser sempre tão responsável.
Amo-te, e sinto saudades do sono, estou gasta, apaixonada, e nesta labuta de amor. É a coisa mais difícil que alguma vez farei, e no entanto nunca foi tão fácil amar-te. Mas os meus olhos estão abertos tantas vezes durante a noite que acordo a sentir-me desfeita, desenterrando os meus calcanhares daquilo que me parece ser vidro, para mais um dia.
Amo-te, e tenho saudades dos domingos lentos, a turbulência dos nossos dias faz-me com que por vezes mal me reconheça no espelho. A forma como às vezes não reconheço a minha voz, a forma como sei que não devia ter gritado, o modo como o teu perdão, de alguma forma, dói mais.
Eu amo-te, e sinto falta de não me preocupar tanto. O mundo costumava assustar-me, e agora petrifica-me, porque não te posso refugiar nestes braços para sempre, não te posso proteger da dor. Tu hás-de sentir tudo isso e eu também, a tua felicidade fará o meu coração bater e a tua tristeza também aí se alojará.
Amo-te, e sinto falta de não partilhar a minha comida, o meu corpo, a minha cama. E no entanto, são todas estas coisas as que amo mais do que nunca, mas também sinto falta de passar tempo sozinha, e sinto falta de comer uma refeição que não seja apressada, para poder saboreá-la, falar com o meu marido antes das 21 horas sobre outras coisas que não sejam a nossa lista de afazeres.
Por vezes sinto falta destas coisas.
E no entanto, estas coisas esbatem-se em comparação com ver-te sorrir quando consegues algo, a forma como os teus olhos tremelicam enquanto te acaricio a testa, a forma como te vejo ser corajos@, ou carinhos@, ou curios@.
O modo como - de certa forma - me sinto mais "eu" do que nunca, contigo. É o mais ocupada que alguma vez estive, e no entanto é gradual e suave.
Eu amo-te.
Escolher-te-ia todas as vezes, estou apenas a encontrar pequenas maneiras de me escolher também a mim neste momento, para poder ser melhor.
Para mim,
Para ti."
tradução livre do texto de Jess Urlichs, escritor.
via Clínica Amamentos

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